O bem-estar animal é um tema que vem ganhando cada vez mais destaque em todo o mundo. Com uma pandemia que foi provocada por uma zoonose (doença transmitida aos seres humanos por animais), essa área de conhecimento passou a ser ainda mais relevante. No Brasil, muitos pesquisadores se dedicam a estudar o assunto e uma professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) está entre os autores do mundo que mais publicam sobre o tema. 

A professora Maria José Hötzel, do Laboratório de Etologia Aplicada e Bem-estar Animal, ligado ao Centro de Ciências Agrárias (CCA) da Universidade, ficou em 15º lugar em uma pesquisa bibliométrica publicada na revista Animals. O levantamento incluiu as publicações sobre bem-estar animal disponíveis no banco de dados Web of Science, considerando os trabalhos de 1990 a maio de 2020, em 22 idiomas.

A pesquisadora da Federal catarinense defende que se faça uma revisão ampla dos atuais sistemas produtivos do agronegócio, visando fazer uma transição para modelos focados no bem-estar animal. Ela explica que pequenas mudanças nas formas como os animais são cuidados hoje não são suficientes e que sistemas alternativos são mais sustentáveis no médio e longo prazo. 

A pandemia é um momento excelente para discutir bem-estar animal e zoonoses. Temos problemas muito grandes, como o desenvolvimento da resistência a antibióticos que são muito importantes, tanto para a produção animal quanto para a saúde humana. Não estamos dando a adequada atenção a essas questões – afirma Maria José. 

Para a pesquisadora, os problemas vêm sendo resolvidos à medida que surgem, porém é necessário parar e pensar nos sistemas como um todo:

É melhor do que ficar resolvendo problemas, olha como está sendo difícil lidar com essa pandemia. É momento de refletir como fazer a transição para sistemas que garantam bem-estar animal e produtos melhores para os consumidores – reforça a pesquisadora. 

Para realizar essa transição, de acordo com ela, é preciso fazer um trabalho de base, de conscientização de produtores e consumidores sobre a importância do tema. É essencial também, segundo Maria José, investir na formação de profissionais dessa área alinhados com as necessidades dos modelos de produção que cuidam do bem-estar animal. 

Temos muitas pessoas interessadas em trabalhar com a temática do bem-estar animal, mas pouco apoio. É preciso mais fomento e devemos chamar a atenção para esse ponto. A área do bem-estar animal teve um crescimento notável no Brasil nos últimos 20 anos, mas a gente precisa dar um passo adiante para que esses grupos de pesquisa que surgiram sejam de excelência e se tornem referência no mundo. 

 

Produção em celas de gestação

Sobre o movimento de empresas que têm se comprometido em deixar de comprar ovos de galinhas confinadas ou matrizes suínas mantidas em celas de gestação, a professora Maria José também afirma que é importante, porém que a discussão precisa ser expandida para a revisão do sistema de criação como um todo. A pesquisadora diz que não se surpreende com o adiamento desse movimento pelas empresas, que falavam em 2022 e agora já falam em 2028.

Veja o exemplo da Europa: lá os produtores tiveram 10 anos para se adaptar, isso foi feito através de medidas regulatórias legais, acompanhado de subsídios e mesmo assim foi difícil. 

Ela destaca também que simplesmente falar que os suínos têm que ser criados em sistemas de gestação coletiva não é suficiente, porque há sistemas de gestação coletiva sem enriquecimento ambiental.

Quando a gente faz só pequenas mudanças, como parar de cortar a cauda ou parar de castrar, a gente se esquece de procurar novas alternativas para problemas maiores, como uso de antibiótico, acúmulo de dejetos, e a revisão do sistema como um todo – conclui.  

 

Faça seu comentário