O Instituto Certified Humane gerencia o programa de certificação de bem-estar animal na América Latina e Sudeste Asiático e ampliou o trabalho para o outro lado do oceano.

Coordenado por Luiz Mazzon, em 2019 o programa praticamente duplicou seu tamanho conquistando novos mercados. A fim de impulsionar a criação de animais de produção com base em normas que promovam uma vida digna, sem dor, sofrimento e privação de liberdade, do nascimento ao abate, o programa foi criado pela HFAC (Humane Farm Animal Care). 

“Hoje em dia, o bem-estar animal se tornou um assunto estratégico para as empresas. Com isso, estamos expandindo fronteiras para países da Ásia, por exemplo”, comenta Mazzon. Segundo ele, em 2018, eram 200 operações em todo o mundo e hoje estamos chegando às 300. Vale reforçar que o selo de certificação Certified Humane pode ser emitido a um pequeno produtor, uma grande empresa ou a grupos de produtores. Confira abaixo a entrevista que fizemos com Luiz Mazzon.

Quantas produções/empresas receberam o selo de bem-estar animal em 2019?

Na América Latina e na Ásia foram 125 granjas, fazendas e empresas certificadas. Com isso, somamos 15,2 milhões de animais beneficiados e 64 inspeções em 12 países (Índia, Malásia, Cingapura, México, Costa Rica, Colômbia, Peru, Chile, Argentina, Uruguai e Brasil). 

Quais os avanços percebidos em torno do bem-estar animal em 2019?

Conseguimos nos consolidar como a referência na produção de ovos livres de gaiolas no Brasil e no Chile e lideramos o início do movimento de certificação de ovos de galinhas livres nos países do Sul e Sudeste da Ásia. Além disso, iniciamos a negociação com grandes grupos de produtores de outras espécies animais, incluindo frangos de corte e bovinos de leite. Portanto, em breve, pretendemos anunciar certificações de projetos de grande porte destas espécies e ampliar o foco para outras espécies, além das galinhas poedeiras. 

Outro ponto positivo foram os cursos que começamos a ministrar com objetivo em capacitar produtores e colaboradores de granjas para as normas de bem-estar animal, focando em um primeiro momento no Brasil e em galinhas poedeiras. Foram cinco edições do curso em cinco cidades de diferentes regiões brasileiras (Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste), sendo 200 alunos capacitados no referencial de galinhas poedeiras (cage free e caipira). 

Quais os planos da Certified Humane para 2020?

O objetivo principal será sempre continuar divulgando a causa da melhoria da vida dos animais de produção na América Latina e Ásia. Queremos entrar em discussão com cada vez mais empresas e fazendas para que tenham a certificação da sua produção animal. Outro ponto que pretendemos é diversificar o portfólio com mais projetos relacionados às outras espécies, como gado de corte e de leite e os frangos de corte, além do aumento de projetos de galinhas poedeiras. Pretendemos ampliar o número de cidades que irão receber os cursos da Certified Humane e aplicá-los também para as outras normas, provavelmente será para os frangos de corte e bovinos de leite, além de continuar aplicando para as galinhas poedeiras. Depois, já iniciamos o projeto para implantar os cursos em espanhol, em especial no Chile.

O que há de novo na questão de cuidados com os animais para o seu bem-estar?

Queremos lançar este ano um referencial de bem-estar animal para búfalos, a partir da demanda por certificação desta espécie e de laticínios. Estamos também adaptando nosso referencial de bovinos de leite para que os produtores possam indicar quando uma fazenda certificada cria seus animais exclusivamente a pasto. Além disso, vamos continuar atualizando as nossas normas atuais, sempre incorporando os conhecimentos que se obtêm sobre o bem-estar dos animais que são destinados à alimentação humana. 

Como você avalia o ano de 2019 para a Certified Humane?

Foi um ano excelente. Praticamente dobramos o número de empresas certificadas e estamos nos consolidando como a certificadora de bem-estar animal com maior credibilidade e alcance do mundo. Auxiliamos na educação dos consumidores finais sobre a importância da produção com bem-estar e estamos chamando a atenção da sociedade para a importância desta produção animal. Muitas pessoas ainda não se dão conta de como os animais que produzem seu alimento são criados. 

Participei de muitos eventos no Brasil e no exterior, incluindo a Ásia, o que demonstra o interesse de todo o mundo no tema que vem ganhando relevância como uma opção de sustentabilidade na produção de alimentos. O desafio, agora, é consolidar a Certified Humane para outras espécies de animais de produção e ajudar a pressionar a sociedade para que exija melhores condições de criação em todas as fazendas e granjas que têm o objetivo de produzir alimento.

E para o bem-estar animal considerando o Brasil e mercado internacional?

No Brasil, assim como no Chile, notamos que a pressão por mudanças está vindo mais da sociedade como um todo – do consumidor final, junto com a indústria -, enquanto na maioria dos outros países é a indústria que consome ingredientes de origem animal que vem pressionando para acontecer a mudança. Isso demonstra uma certa maturidade do consumidor brasileiro e chileno no que diz respeito à sustentabilidade da produção primária. Mesmo havendo uma profunda ignorância sobre a produção animal pela maioria da população, o tema bem-estar animal não é mais uma grande novidade, já é algo que o consumidor busca, mesmo porque começa a encontrar alternativas à disposição de compra, principalmente para o mercado de ovos.

A maioria absoluta das empresas busca a certificação para atender ao seu cliente doméstico, seja ele o consumidor final ou a indústria de alimentos que utiliza o ingrediente animal. Poucas empresas buscam a certificação para exportar aos mercados mais exigentes, como os Estados Unidos.

O que você espera para o ano de 2020?

Aumentar a visibilidade do selo, ampliar a oferta de cursos para qualquer interessado que queira entender como são as exigências da produção com bem-estar animal. Quero também conseguir certificar outras espécies, como aquelas que já mencionei – gado de corte e leite e frangos, que são as de maior demanda depois dos ovos. A expectativa é também que produtores de suínos melhorem as condições de criação destes animais que, junto com as galinhas poedeiras, têm os sistemas mais cruéis de produção, onde os animais passam a vida inteira praticamente enjaulados.

Você poderia dar dicas para o produtor que pretende começar agora sua produção de animais? E também para quem já os cria no modo convencional, mas pretende considerar o bem-estar animal no próximo ano? 

Meu recado é que o produtor considere que esta é uma exigência do consumidor em um caminho sem volta, não é moda. Assim como vem ocorrendo com o mercado de orgânicos, a tendência é apenas o crescimento. Quem seguir atuando no mercado e ignorar esta tendência tem a forte possibilidade de estar fora na próxima década. Indico que todas as expansões de produção sejam em sistemas que priorizem o bem-estar animal, tal como preconiza as normas Certified Humane. Estaremos sempre à disposição para explicar todos os detalhes presentes nas nossas normas, pois a nossa missão é melhorar a vida dos animais de produção.


agenda 2020 de cursos de bem-estar animal

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