Os impactos do calor na agropecuária ainda são pouco difundidos e, muitas vezes, ficam restritos aos produtores e criadores, que devem estar cientes dos reflexos que a exposição dos animais às altas temperaturas pode provocar.

A influência do calor tem uma relação direta com bem-estar animal e sua produtividade. A temperatura elevada somada à falta ou ao excesso de chuvas pode prejudicar as pastagens, enquanto os animais têm seu metabolismo e comportamento afetado.

Em tempos em que o calor bate recordes históricos, a atenção deve ser redobrada para a garantia de uma criação sustentável. Segundo alertas da Organização Meteorológica Mundial (OMM), o planeta está ao menos um grau mais quente do que na era pré-industrial, entre 1850 e 1900, e a tendência é continuar em elevação. Em números parece pouco, mas o dado demonstra que a rápida aceleração na temperatura média global intensifica a ação dos gases do efeito estufa e provoca problemas como a diminuição de geleiras, o aumento do nível do mar, e gera complicações para diversos setores do agronegócio.

No Brasil, tanto na região tropical como subtropical (sul do país), até 20 de março estamos em pleno verão, uma estação que exige atenção redobrada no campo. Os criadores devem ficar atentos para manter o bem-estar animal, em especial, porque o excesso de calor pode gerar perdas produtivas e reprodutivas, além de transtornos na manutenção da qualidade da cama, a exemplo de aves, devido ao aumento do consumo da água.

O recado é da professora Dra. Rosangela Poletto Cattani, membro do Comitê Científico da Certified Humane Brasil. De acordo com a especialista, em razão do calor excessivo, os animais menos adaptados às temperaturas mais altas diminuem o consumo de alimentos, o que provoca reduções na produtividade de leite, carne e ovos, por exemplo. Além disso, animais em situação de estresse calórico têm seu bem-estar comprometido, tem seu comportamento afetado e ficam mais vulneráveis a adoecerem e sofrerem de desidratação ou queimaduras de pele sérias – a exemplo de suínos expostos diretamente ao Sol durante o transporte.

Se estima que 80% das perdas na produção em decorrência do calor excessivo estejam associadas com a produtividade do animal — quantidade e qualidade do leite, ovos e carnes e redução do consumo de alimentos. Os 20% restantes são perdas associadas a desordens de saúde, também impulsionadas pelo calor exacerbado, e que provocam problemas de reprodução e imunidade, bem como o aumento da mortalidade e particularmente a frequência de doenças como mastite (inflamação das glândulas mamárias) em vacas.

Conforme Rosangela, os animais mais suscetíveis a sofrer estresse calórico devido à alta incidência de calor costumam ser os bovinos, principalmente das raças europeias, os ovinos de raças lanadas, que costumam ser menos adaptadas ao calor, além de espécies que não suam e que tem uma maior dificuldade de perder calor corporal, como os suínos e as aves.

Como assegurar conforto térmico nas criações

Geralmente os ambientes bem ventilados, com estruturas naturais ou artificiais de cobertura ajudam a amenizar o estresse por calor e auxiliam no bem-estar animal. A evolução tecnológica também tem papel importante no bem-estar animal e tem contribuído para melhoria da ambiência animal. Com base no conhecimento sobre fisiologia e comportamento animal deve-se considerar sempre que eles devem ter acesso à sombra nos períodos mais quentes do ano para a manutenção da produtividade, mesmo para as espécies e raças adaptadas a regiões tropicais. Alguns cuidados que podem ser levados em consideração pelos criadores são:

  • Abrigo com boa ventilação e cobertura (servem para reduzir os efeitos do calor em excesso sobre os animais, raios solares não devem incidir diretamente sobre os animais principalmente nos horários mais quentes do dia, ou seja, entre 10 e 14 h);
  • Sistemas de ventilação associados a aspersores (que umedecem o ar e servem para refrescar ambientes mais fechados, onde costumam ser criados suínos, bovinos de leite e aves); 
  • Disponibilização de sombra natural (árvores) para os animais mantidos no pasto;
  • Instalação de sombrite nas áreas de manejo e no pasto (essencial ter área de cobertura simultânea para todos os animais).

É importante ressaltar que os criadores devem observar de forma constante se a temperatura está ideal para fornecer o conforto e o bem-estar animal e atentar a sua relação com a umidade do ar – temperatura elevada associada a uma umidade relativa do ar acima de 80% dificultam a perda de calor corporal. Há uma condição térmica conhecida como zona de termoneutralidade, definida como uma faixa de temperatura máxima e mínima na qual o animal não precisa acionar mecanismos fisiológicos e comportamentais para manter a temperatura corporal, a homeotermia. Ou seja, ele está em uma zona de conforto térmico mesmo com as variações da temperatura ambiental.

A homeotermia varia conforme diversos fatores, dentre eles a espécie, a idade do animal, o tipo de instalação de alojamento e o espaço dedicado a cada animal (quanto mais amontoados, maior a produção de calor e o risco de estresse). O estado fisiológico também é considerado: animais recém-nascidos, por exemplo, são mais propensos a sofrer flutuação térmica, assim como as fêmeas em fase de lactação e gestação, uma vez que a produção de leite aumenta o calor corporal.

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